sábado, 20 de novembro de 2010

As Pedras da Fortuna

Eu era adolescente e ainda lia a revista Capricho quando vi uma edição especial na banca, toda dedicada ao estilo francês de viver. É claro que não resisti, principalmente por ser uma admiradora da cultura e arte francesas.
Além dos assuntos ligados a moda, o que mais me chamou atenção foi o endereço de um clube de correspondentes internacionais, o nome é International Pen Friends, também conhecido pelas siglas IPF. Fiquei bastante curiosa com a possibilidade de estabelecer contato com pessoas ao redor do mundo e o que era mais fascinante em tudo isso: ainda não havia e-mail! Toda a troca de correspondência seria feita através de cartas, carimbadas no correio e com muitos selos.
Tudo aconteceu no ano de 1998 e as coisas estavam muito agitadas em torno da minha vida familiar e pessoal, por essa razão, recortei aquele endereço e o guardei para o dia que teria paz e tempo suficiente para tratar daquilo como um assunto sério. Afinal o valor mais importante que estava diante de mim naquela ocasião chamava-se família.
No ano seguinte escrevi uma carta para a representante do IPF no Brasil: Joina Moura. Fiquei extremamente surpresa com a rapidez da resposta e muito ansiosa para preencher o formulário com os países que eu mais desejava conhecer: países da costa africana, Portugal, Grécia, Egito, Austrália, Inglaterra, Alemanha e, França, é claro.
Na minha primeira lista não tinha nenhum correspondente do Egito ou da Grécia, o que de certa forma foi um decepcionante. Mas havia muitos contatos dos outros países, alguns deles se transformaram em amizades duradouras, como é o caso da amiga lisboeta Ana Isabel. Entretanto, a surpresa maior foi receber uma carta de Jerusalém. Eu não havia escolhido o estado de Israel, mas alguém de lá havia escolhido um contato no Brasil e o IPF acabou enviando meu endereço para esta pessoa.
O nome do meu pen  pal é Stelios Odeh. Um cipriota , um pouco mais jovem do que eu e que morava nos arredores da cidade velha de Jerusalém. Meu novo correspondente trabalhava no hotel Glória e em poucos meses nos tornamos muito amigos. O que o diferenciava de todos os outros? A seriedade com que ele tratava a amizade entre as pessoas. Um dia, ele me enviou duas pedras, e disse que eram as “pedras da fortuna”, retiradas da área do Mar Morto. Segundo Stelios, enquanto dois amigos mantivessem suas pedras consigo, a amizade deles existiria para sempre, mesmo que fosse apenas na memória e no coração.
Continuo com as minhas pedras bem perto de mim. É a única maneira de lembrar deste amigo, que perdi o contato desde que a violência entre judeus e palestinos se intensificou em Israel. A última carta que recebi dele foi em junho de 2002, e dizia que a situação em Jerusalém estava insuportável com os constantes atentados e as sucessivas mortes de seus amigos e colegas de trabalho.
Quando li aquela carta, eu chorei. Sabia que meu amigo Stelios Odeh estava se despedindo de mim. Escrevi para ele em seguida, mas não obtive resposta por muitos anos. Dele sempre lembro, praticamente todas as vezes que toco nas nossas pedras dos amigos, mas lembrei dele de forma especial quando reencontrei uma antiga carta, a partir dela me veio a lembrança do valor da amizade.
Não precisamos deixar as pessoas sumirem de nossas vidas para dizermos o quanto elas são especiais. A amizade é um bem precioso e deve ser construída dentro de nós, de forma que ela possa se transformar numa riqueza, do tipo que faça sentido apenas para duas pessoas, uma riqueza mais valiosa que duas pedras frias retiradas de um mar que nem vida tem.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Três dias auspiciosos

Todos nós somos fascinados pela influência de determinadas datas em nosso cotidiano. Existem algumas épocas que nos excitam pela festividade que as acompanham, como o carnaval e os festejos juninos no Brasil; outras datas que nos empolgam pelo seu simbolismo, como a semana santa e as festas natalinas e há até aquelas que nos remetem ao nosso dever cívico, como os feriados de 7 de setembro, com o seu desfile em praça pública e a celebração da proclamação da república brasileira, pelos militares golpistas no 15 de novembro.
Particularmente sempre prestei bastante atenção a estes momentos, alguns deles marcados pelo rito e pelo afloramento de sentimentos variados por parte das pessoas. Lembro ainda quando criança o quanto eram importantes três dias: Dia das bruxas, dia de todos os santos e dia de finados. Normalmente íamos para a igreja, acendíamos velas em casa para nossos parentes mortos, não ouvíamos músicas ou comemorávamos qualquer coisa. O respeito pela morte dos outros era o motivo central para nos silenciarmos naqueles dias, ou pelo menos no dia de finados. Afinal, no portão de um cemitério paulista está escrito: "Nós que aqui estamos, por vós esperamos". Não é esta uma verdade?
Mas neste ano pude observar o quanto o pesar pela morte ou desencarnação de nossos parentes e amigos, tem sido pouco sentido por muitas pessoas. Além da movimentação e do comércio nos cemitérios locais, o clima não estava nada fúnebre: era apenas um grande feriado. Isso nos mostra o quanto estas práticas culturais e religiosas perdem o seu sentido diante de um mundo cada vez mais interligado. 
Do começo desta semana, ou seja, do domingo (31.10), passando pela segunda (1º.11) até a terça-feira (2.11), vivemos a sucessão de três dias auspiciosos: Dia das bruxas; Dia de todos os santos; Dia de Finados.
E qual o significado destas três datas? Por quais motivos elas aparecem juntas no calendário ocidental?
A origem remonta à Europa antiga. Segundo alguns especialistas, o povo celta que habitava a Grã-Bretanha, acreditava na existência de forças malignas e espíritos do mal. Os celtas acreditavam que os espíritos dos mortos abandonavam suas covas no cemitério na última noite do verão, ou o Samhain (31.10) para buscar os vivos. Existiam muitas deidades entre eles, as fadas eram consideradas bem reais, não apenas como parte de uma tradição oral, mas como seres que partilhavam o mesmo espaço que os celtas. Para eles, existia outro mundo, o "Otherworld" era habitado pelas divindades e os espíritos dos mortos descansavam nesta terra de sol constante e calor intenso. 
Com a cristianização, os seres da mitologia celta foram transformados em demônios e as fadas em bruxas. O dia 31 de outubro, ficou conhecido como Dia das Bruxas e as pessoas passaram a colocar determinados tipos de objetos para afastar a presença destas entidades de suas casas.
 Assim, a Igreja Católica tratou de criar um dia para a celebração de todos os santos cristãos, provavelmente no século IV, numa tentativa de arrastar as pessoas para seu modelo de crença, a partir do exemplo dos primeiros mártires e religiosos católicos. Séculos depois, ela estabeleceu um único dia para a celebração aos mortos. Desta vez, os vivos fariam o caminho inverso: visitariam os cemitérios com flores, velas e preces, como oferendas para os espíritos dos parentes mortos. Os mortos não retornavam mais para fazer mal aos vivos. Eram os vivos que  ultrapassavam o limiar e se encontravam no espaço da morte, para rememorar aqueles que tinham vivido entre eles.
Lendo o Dicionário de Simbologia de Manfred Lurker, fica claro para mim que os dias que vão de 31 de outubro até 02 de novembro tratam da morte e da sua representação em diferentes contextos históricos e sociais e o que é mais importante, ela é tomada como a ponte entre o mundo do além (otherworld) e o mundo dos vivos, ou nas palavras de Lurker: "apenas uma passagem para outro estado".

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O medo é a danação do povo

Comecei a votar apenas aos 19 anos de idade, mas sempre fui politizada e engajada na busca de uma democracia de fato mais representativa, do que cenográfica. Digo cenográfica não desrespeitando os verdadeiros atores e atrizes que fazem arte da vida e nos brindam com a mesma. Falo cenográfica no sentido da farsa quixotesca que vem sendo montada e encenada por muitos anos pela direita deste país. Uma direita que qualquer estudante de história sabe o quanto corcordou com os desmandos durante o regime militar e mesmo após o movimento das Diretas Já, sempre esteve implicada com o interesse dos grandes grupos econômicos  que controlam o Brasil.
Agora, mas do que nunca, me assombra a onda difamatória que está sendo levantada contra a candidata petista Dilma. Um tsunami de mentiras forjadas e de um passado redesenhado. Isto já foi feito com o atual presidente em exercício, e como a fórmula funcionou, os direitistas querem espalhá-la novamente. Seria fórmula ou veneno?
E o que quero com este post? Pedir que cada um dispa-se de seus preconceitos e visões limitadas em torno das pessoas e fique atento ao que os livros de história nos trazem. A roda da fortuna favorece o Brasil neste momento, não apenas pelo sucesso do plano Real, mas pela conjunção de diversos fatores e pela administração que foi realizada pelo governo Lula nos últimos oito anos. Compare a sua vida durante a gestão de FHC com a realidade que você vive hoje. Anote os êxitos e os fracassos e veja onde mais cresceu. Assim será capaz de avaliar um pouco a mudança, sem precisar ter medo do novo. Sem precisar ter medo da Dilma. O medo é a danação do povo. Lembrem-se disso.
Segue texto interessante para leitura.
Um bom voto para o Brasil:




08.10.10 – BRASIL
Eleição, aborto e a infantilização da religião
Jung Mo Sung *
na Adital, por sugestão da leitora Adenilde Petrina 
Por que bispos, padres e grupo religiosos que sempre defenderam a separação radical entre a religião e política, que sempre criticaram a discussão política no âmbito da Igreja ou até mesmo a relação “fé e política”, estão fazendo, até mesmo nas missas, campanha aberta contra Dilma?
Uma primeira resposta poderia ser: hipocrisia. Respostas moralistas podem satisfazer o “juiz moralista” que todos nós carregamos no mais profundo do nosso ser, mas não são boas para nos ajudar a entender o que está acontecendo.
Esta campanha contra a candidatura da Dilma, e com isso o apoio explícito ou implícito à candidatura do Serra, está sendo feita de várias formas, mas com um elemento comum: os católicos e os “crentes” não devem votar nela porque ela seria a favor do aborto e, por isso, contra a vida. Alguns agregam também a acusação de que, se ela for eleita, as TVs católicas e evangélicas seriam proibidas de veicular os programas religiosos ou obrigadas a diminuir o seu tempo de duração. É a velha acusação de que “comunistas” são contra a religião.
Essas duas acusações são expressas e justificadas através de lógicas religiosas, e não a partir da “racionalidade leiga” que deve caracterizar a discussão sobre a política hoje. Esses grupos não admitem a distinção entre a religião e a política, ou melhor, não admitem a “autonomia relativa” do campo político e de outros campos -como o econômico- que se emanciparam da esfera religiosa no mundo moderno. Por isso, eram e são contra “fé e política” ou o debate sobre a política no campo religioso, pois esses debates são feitos normalmente a partir do princípio da autonomia relativa da política. Isto é, a discussão sobre questões políticas são feitas com argumentos de racionalidade sócio-política e não submetidos ao discurso meramente religioso.
Para esses grupos (é preciso reconhecer que ocorre também em outros grupos político-religiosos), os valores religiosos (do seu grupo) devem ser aplicados diretamente a todos os campos da vida pessoal e social. E, em casos graves como aborto, ser impostos sobre toda a sociedade através das leis do Estado. Nesses casos, não seria misturar a religião com a política, mas seria a “defesa” dos mandamentos e valores religiosos; ou colocar a política a serviço dos valores religiosos (nessa discussão apresentados como “a serviço da vida”). Pois, nada estaria acima dos “mandamentos de Deus”. Desta forma não se reconhece a autonomia relativa do campo político, a dificuldade de se passar do princípio ético abstrato (do tipo “defenda a vida”) para as políticas sociais concretas, e muito menos se aceita a pluralidade de religiões com valores diversos e propostas de ação divergentes e conflitantes.
Esta é a razão pela qual esses grupos não entendem e nem aceitam a resposta dada por Dilma de que ela, pessoalmente, é contra o aborto, mas que ela vai tratar esse tema como um problema de saúde pública. Para ouvidos daqueles que crêem que não há ou não deve haver separação entre a saúde pública (o campo da política social) e a opção religiosa pessoal do governante, a resposta da Dilma soa como eu não sou contra o aborto, que logo é traduzido na sua mente como “eu sou a favor do aborto”.
E se ela é a favor do aborto, ela é contra a vida e, portanto, ela é do “mal”. Enquanto que, por oposição, o outro candidato seria do “bem”.
Reduzir toda a complexidade da “defesa da vida” -a que um/a presidente deve estar comprometido/a- à manutenção da criminalização do aborto (que é o que está discutido de fato neste debate sobre ser a favor ou contra o aborto) é uma simplificação mais do que exagerada. Simplificação que deixa fora do debate, por ex., toda a discussão sobre políticas econômicas e sociais que afetam a vida e a morte de milhões de pessoas. Mas é compreensível quando os cristãos têm muita dificuldade em perceber quais são os caminhos concretos e possíveis para viver a sua fé na sociedade, perceber em que a sua fé pode fazer diferença na vida social. Diante de tanta complexidade, a tentação mais fácil é simplificar o máximo para separar “os do bem” de “os do mal”.
Essa simplificação me lembra a pergunta que os meus filhos, quando muito pequenos, me faziam ao assistir um filme: “pai, ele é do bem?” Se sim, eles torciam por aquele que “é do bem” contra o “do mal”. Essa necessidade de separar os do bem e os do mal faz parte da condição mais primária do ser humano. O problema é que reduzir toda a complexidade da luta em favor da vida ao tema de ser favor ou contra a manutenção da criminalização do aborto é infantilizar a discussão política e, o que é pior, é infantilizar a própria religião que professa.
[Autor, em co-autoria com Hugo Assmann, de "Deus em nós: o reinado que acontece na luta em favor dos pobres"].
* Coord. Pós-Graduação em Ciências da Religião, Universidade Metodista de São Paulo


sexta-feira, 1 de outubro de 2010

"Dei minha palavra por meio saco de cimento"

Era mais um dia de pegar transporte público para chegar ao trabalho. Enquanto eu ficava imaginando minhas justificativas para utilizar aquele sistema coletivo comecei a ouvir vozes bastante exaltadas nos bancos de trás do ônibus. E como boa antropóloga, aprendi a lição, "olhar, ouvir e escrever", assim, apurei o ouvido para acompanhar aquele diálogo. A conversa daqueles passageiros era sobre a eleição de 2010 e um deles estava muito empenhado em difamar os políticos das gestões atuais. Ele os chamava de falsos, enganadores e de corruptos. Por alguns segundos comecei a sentir simpatia por aquele homem e quando estava prestes a girar meu corpo no assento para lançar aquele olhar de cumplicidade que só nós eleitores tantas vezes enganados sabemos a hora correta de utilizar, aquele homem mudou o seu discurso.
Retomou sua fala dizendo que era natural do município de Parelhas, no interior do RN. E que um candidato local havia prometido ajudá-lo na reforma do seu banheiro. Segundo o homem, o cabo eleitoral passou na sua casa às vésperas da eleição e coletou o número do seu título de eleitor. Ficou a promessa que retornaria no dia da eleição com a ajuda para a tão necessitada reforma, e qual foi a surpresa daquele homem, quando o cabo eleitoral retornou com apenas meio saco de cimento. Como promessa é promessa, nada pode ser de fato cobrado, mas para aquele homem de Parelhas, seu voto valia a metade de um saco de cimento. Ele terminou sua fala dizendo "dei minha palavra por meio saco de cimento". E o silêncio voltou ao banco de trás do ônibus.
Fiquei imaginando o quanto um pouco de educação e informação podem fazer a diferença dentro de qualquer pleito eleitoral. Desde o século XVIII que os brasileiros lutam por participação política. Imagino os envolvidos na maior rebelião política brasileira, a Conjuração Baiana. Cipriano Barata e seus seguidores lutaram pelo direito à participação nos processos de decisão. Penso também nas revoltas do século XIX, como a Revolução de 1817. Era uma outra luta por igualdade, mas também por liberdade de expressão e mais uma vez, participação política.
Caso me permitam um salto no tempo, posso agora recordar da opressão imposta pelo regime militar e o movimento criado para derrubá-lo, seja a luta das guerrilhas urbanas, seja a reorganização da oposição no que ficou conhecido como "Diretas Já".
Quase 3 séculos de lutas e conquistas, mas o principal terreno continua sendo ocupado pela ignorância permissiva e passiva: a consciência do brasileiro.
Posso até criar o perfil daquele homem de Parelhas no ônibus e dizer que o mesmo deu a sua palavra "por meio de saco de cimento" por ser um trabalhador do campo, sem instrução e que ainda guarda muito da ingenuidade de tempos atrás. Seria uma justificativa muito leviana da minha parte.
Mas o que dizer de outros homens e mulheres, com diferentes níveis de formação educacional e cultural e moradores de todas as cidades deste imenso país que ainda trocam o seu voto por qualquer tipo de favorecimento?
Quando fiz 19 anos tirei o meu título de eleitor. De imediato recebi duas visitas: a primeira de um candidato a vereador, ele prometeu um cargo político para mim caso desse o meu apoio para ele. Ri daquela proposta e lhe disse que ainda era estudante universitária e não tinha nenhum interesse por administração pública. Em seguida, um parente muito próximo pediu para eu transferir meu título para uma cidade do interior e assim ajudá-lo a ser eleito. Minha recusa foi acompanhada de um sorriso para dizer que tenho a obrigação de participar da vida política do meu domicílio eleitoral, logo, não poderia atender sua solicitação.
Todos podemos ser convidados a vender, trocar ou barganhar nosso direito de escolha, mas todos devemos ser responsáveis pelas más escolhas que fazemos, levando em conta apenas nossas necessidades individuais e esquecendo que quatro anos de desastrosas políticas públicas significam quatro anos de atraso em setores estratégicos e vitais, como educação, saúde, transporte e moradia.
Precisamos reformar o pensamento, como já dizia Edgar Morin, e aproveitar para reformar as nossas instituições. A política é delas uma das principais, deve ser modificada para que sobreviva e nos conceda uma melhor vida no futuro.
Nossa palavra deve ser dada como garantia de um futuro melhor, até porque um vaso sanitário é fácil de encontrar, mas um bom político, precisa ser escolhido a dedo.

domingo, 27 de junho de 2010

Mostra Jean Rouch e o público natalense

Como natalense sempre ouvi queixas de muitas pessoas sobre os poucos programas culturais que a cidade nos oferece. Existem até aqueles que dizem preferir a cidade de Recife, enquanto pólo cultural e outros dizem que no eixo Rio de Janeiro-São Paulo é possível ver o mundo e muito de nós mesmos.
Eu já tive a oportunidade de vivenciar muitas experiências culturais. Começando por uma exposição sobre os Cavaleiros Templários, na fortaleza da cidade de Lagos, Portugal. Na Austrália, pude mergulhar na cultura nórdica com uma exposição no Maritime Museum em Sydney sobre os vikings. Também me encantei com a exposição Deuses Gregos, exposta na FAAP, na capital paulista. Lembro da visitação ao recém inaugurado Instituto Ricardo Brennand, em Recife e a possibilidade única de ver a obra de Albert Eckout no seu olhar sobre o Brasil holandês.
Entretanto o que despertou minha atenção e ocupou meus sentidos foi a Mostra Jean Rouch, exibida no Auditório do Sebrae, situado na Avenida Lima e Silva.
Durante seis dias foram apresentados mais de 35 filmes e documentários que apresentaram a importância da obra de Jean Rouch para a construção de um cinema etnográfico documentando de forma ficcional a realidade africana.
Na última sexta-feira pude me deliciar com Petit a Petit, produzido entre os anos de 1968 e 69, e mergulhar na cultura funerária dos Dogons com L'enterrement du Hogon e com Le Dama d'Ambara. E quantos mais desfrutaram destas obras do cinema francês e da visão do etnógrafo Jean Rouch? Naquela sexta-feira havia aproximadamente 12 pessoas no auditório do Sebrae. Apenas 12 pessoas aproveitaram naquela noite a mostra Jean Rouch e pelo o que conversei com um professor da UFRN, o público tinha sido pequeno em todos os outros dias.
Anos atrás precisávamos viajar para outros estados, regiões, países para desfrutar de boas mostras e exposições, mas quando as temos em nossa cidade apenas uns poucos percebem a importância disso.
O público natalense precisa despertar para o mundo, e enxergar além das fronteiras desta pequena província. O mundo nos é trazido e escondemos nossa cabeça dentro de um buraco? Jean Rouch me mostrou novos cenários e novas possibilidades do fazer artístico, principalmente sobre como fazer cinema, mas também mostrou que o natalense precisa muito perceber-se e encontrar-se além dos seus limites.

domingo, 28 de março de 2010

Em nome do Pai?

Nas últimas semanas, a mídia divulgou escandalosos casos de pedofilia envolvendo membros da igreja católica. Não é a primeira vez que denúncias sobre abusos sexuais são feitas contra sacerdotes católicos.
O último papa, João Paulo II, recebeu diversos relatos e confissões de padres pedófilos, mas a justiça do vaticano é diferente daquela que deve ser aplicada no mundo. Talvez por tratar-se da Cidade de Deus, mas num conceito diferente daquele pensado por Agostinho de Hipona. Será que as leis dos homens não servem para julgar os crimes dos filhos do Pai? Principalmente quando estes crimes são feitos à sombra Dele?
O papa Bento XVI mostrou a mesma indulgência em relação aos sacerdotes pedófilos. A sua omissão enquanto cardeal para averiguar e afastar os pedófilos do sacerdócio, atualmente é vista com bastante crítica por parte da opinião pública em todo o mundo.
Foi o tempo que todo desvio de comportamento era rigorosamente investigado pelo tribunal católico e as penas duras eram aplicadas com o rigor da irracionalidade. Um tempo de indulgências sem fim foi iniciado e "em nome do pai", crianças e adolescentes são violentados fisicamente e psicologicamente dentro das igrejas e suas instituições. Porém isto não é levado em consideração pelo alto clero, afinal os sacerdotes são pastores que precisam abraçar suas ovelhas.
Domingo de Ramos é um rito que inicia uma semana de reflexões para os cristãos de todo o planeta. Mais importante seria se cada membro da igreja voltasse os olhos para o presente e interpretasse com mais respeito à integridade da pessoa humana a passagem do evangelho que diz: Deixai vir a mim as criancinhas.

quarta-feira, 10 de março de 2010

M de Março, M de Mulher

No século XIX, auge da Revolução Industrial nos Estados Unidos, um grupo de operárias resolveu organizar-se para reinvidicar melhores condições de trabalho e salários mais justos. As mulheres foram trancadas num galpão da fábrica e a construção foi incendiada de forma criminosa, consumidas nas chamas, as ideias daquelas dezenas de mulheres espalharam-se como fumaça pelo mundo e no século XX foi instituído o Dia Internacional das Mulheres.
As relações entre os gêneros foram alteradas desde que a mulher tomou consciência do seu amplo papel na sociedade e passou a ocupar cadeiras nas universidades e postos de trabalhos.
Entretanto o preconceito, associado com a desinformação, impedem que milhões de mulheres sejam reconhecidas e respeitadas nos lares e no mercado de trabalho. Centenas de pesquisas confirmam que ao redor do mundo, a igualdade de fato entre homens e mulheres encontra-se muito distante do discurso proferido. É como se todos os dias fossem o Dia do Homem, e apenas o 08 de março fosse dedicado à mulher.
Nesta perspectiva, penso que março como maio são os meses com a letra M, M de mulher. A propósito, estas são as épocas quando a natureza feminina é mais lembrada e cantada, mas ainda longe de ser totalmente valorizada.
Em homenagem ao mês das mulheres e ao Oito de Março, transcrevo um texto atribuído ao escritor francês Victor Hugo. Parabéns à alma imortal feminina.
O Homem e a Mulher
O homem é o mais elevado das criaturas. A mulher o mais sublime dos ideais.
Deus fez para o homem um trono, para a mulher um altar; o trono exalta e o altar santifica.
O homem é cérebro, a mulher é coração; o cérebro produz a luz, o coração produz o amor, a luz fecunda, o amor ressuscita.
O homem é o gênio, imaculável, a mulher anjo indefinível.
A aspiração do homem é a suprema glória, a aspiração da mulher é a virtude extrema; a glória promove a grandeza, a virtude a divindade.
O homem tem a supremacia, a mulher a preferência; a supremacia significa força, a preferência representa o direito.
O homem é forte pela razão, a mulher é invencível pelas lágrimas; a razão convence, as lágrimas comovem.
O homem é capaz de todos os heroísmos, a mulher de todos os martírios; o heroísmo nobilita, o martírio purifica.
O homem é um código, a mulher um evangelho; o código corrige, o evangelho aperfeiçoa.
O homem é um templo, a mulher é um sacrário; ante o templo, nos descobrimos, ante o sacrário nos ajoelhamos.
O homem pensa, a mulher sonha; pensar é ter larva no cérebro, sonhar é ter na fonte uma auréola.
O homem é um oceano, a mulher um lago; o oceano tem pérola que adorna, o lago poesia que deslumbra.
O homem é a águia que voa, a mulher o rouxinol que canta; voar é dominar o espaço, cantar é conquistar a alma.
O homem tem ym farol: a consciência, a mulher uma estrela: a esperança; o farol guia, a esperança salva.
Enfim, o homem está colocado onde termina a terra, a mulher onde começa o céu.

Dia de Reis e os sentidos desse evento para nossa história

 Dia de Reis Magos e os sentidos desse evento para nossa história Está escrito no Evangelho de Mateus, 2:1, (...) eis que magos vieram do Or...