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quarta-feira, 17 de abril de 2013

Lendo o Brasil


Como ler um país etnicamente diverso e eticamente tão frágil? Esta tem sido uma preocupação demonstrada recentemente por estudiosos e especialistas em todo o Brasil. É claro que outros já haviam se debruçado em torno desta temática, como os antropólogos Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro e mais recentemente Roberto DaMatta, entretanto a proposta que se apresenta agora é: ler o Brasil através da lente da ética.
A ética é evocada por todos como uma entidade acima do bem e do mal, verbalizada nos discursos, debatida nas salas da academia, entretanto pouco vivenciada seja no foro íntimo, seja no âmbito mais amplo do social.
Não nos cabe definir ética do ponto de vista da filosofia ou da sociologia, mas refleti-la no campo das ações humanas e de suas construções sociais, tanto ao longo da história, quanto na prática cotidiana, ou seja, a partir do olhar antropológico.
A primeira reflexão sobre ética e história obtivemos a partir da leitura do livro A assustadora história da maldade.  Na primeira parte da obra, o autor discute como a moral humana muda ao longo do tempo. Práticas que há 300 anos eram vistas como abomináveis, hoje as vemos sendo aplicadas de forma naturalizada. Valores tidos como corretos 120 anos atrás na história, atualmente são percebidos como equívocos ou ingenuidades. Os valores mudam graças à dinamicidade da história e das construções humanas.
As 48 leis do poder foi outro livro que despertou a atenção para o tipo de ética que estamos vivendo no século XXI. Em 48 situações os autores nos chamam atenção para o tipo de comportamento que devemos estabelecer com as pessoas ao nosso redor, para tirar o máximo de proveito do esforço e do trabalho delas. É uma obra aética, um livro despojado de preocupações morais relevantes em relação ao outro, mas pleno da ética individualista que tanto foi moldada pelo capitalismo nos últimos dois séculos.

Basta um olhar superficial sobre a sociedade brasileira para podermos identificar o quanto estabelecemos destas práticas em nossa história e vivências. Velhas e tão conhecidas fórmulas como “Você sabe com quem está falando?”, ou a “carteirada” exemplificam um pouco dos paradigmas que vivemos. O Brasil é a nação do clientelismo, do nepotismo, dos pelegos e do famoso “jeitinho”, todos são demonstrações que nossa diversidade cultural espelha uma variedade de comportamentos não acertados que nos impedem o crescimento de uma cidadania mais plena e viável para o conjunto da população. Sofremos de uma moral defeituosa e esta necessita de uma mudança, que apenas pode ser consolidada com uma reflexão em torno de nossas dinâmicas sociais, o que pode propiciar uma interiorização de novos conceitos que privilegiem o “outro” antes do “eu”.
Quais tipos de leituras podemos fazer sobre o Brasil? Utilizando a ética como lente, toma-se a reflexão crítica como ponto de partida para uma análise da moralidade brasileira, em seguida, pensar os contextos mostra-se essencial para a tomada de decisões que deve ser efetuada. A reflexão ética requer problematizar os fundamentos que norteiam nossas ações. Serve ainda para questionar os valores componentes da moral. Que tipos de componentes fazem parte da moral que vivenciamos? A sociedade de consumo, o imediatismo nas relações que estabelecemos com os outros, os jogos de interesses, as máscaras que assumimos ao longo do dia, nosso pouco engajamento com as questões sócio-ambientais, tudo serve para a reflexão ética.
Leitura é tarefa difícil, pois exige a apreensão daquilo que é lido e a formulação de uma reflexão profunda acerca do que o texto nos tem para ensinar. O desafio é ler o Brasil levando em consideração a sua trajetória histórica, as suas matrizes formadoras e as instituições que foram criadas ao longo dos séculos. Ler a partir da ética para uma mudança de paradigma, que começa dentro de cada um e depois transforma a sociedade. Assim, devemos ler com compromisso o livro Brasil.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Independência e Voto


No último desfile de 07 de setembro, havia um homem na multidão coberto com a bandeira do Brasil, ele perguntava aos gritos onde estava a independência do povo brasileiro, mas as pessoas olhavam para ele e faziam de conta que era apenas mais um lunático das ruas de Natal.

Eu vi o desfile cívico com a imagem dele em minha cabeça e, ao longo das duas horas seguintes, fiquei questionando se aquela celebração tinha qualquer relação com a nossa vida política atual. No meio do povo, eu buscava imaginar se havia algum candidato das próximas eleições da cidade, seja para a câmara ou para a Prefeitura. Mas era muito difícil elaborar uma imagem assim na minha mente.
Aos poucos, o homem com a bandeira nas costas e um discurso de indignação tomava mais espaço em minha memória recente e despertava também várias reflexões sobre nosso processo histórico e a participação popular na política cotidiana.  Eu olhava para aqueles rostos no meio da multidão e questionava se qualquer um deles sabia o valor de uma independência.
Em pouco tempo, meu entusiasmo de neta de ex-combatente foi desaparecendo e a partir da história da luta do meu avô junto a tantos outros pracinhas da FEB, pensei nas muitas outras lutas que o Brasil assistiu nos últimos séculos em nome do ideal de liberdade e, mais uma vez, refleti sobre a mudança operada na busca desse ideal.
As armas foram substituídas e os defensores da nossa liberdade se multiplicaram aos milhões através do direito de voto. Mas quantos sabem desse poder de mudança e transformação? Quantos fazem uso dessa herança, que é fruto de muitas batalhas nos campos e nas cabeças das pessoas?
O que eu gostaria de ver no próximo dia 7 de outubro é um grito de independência dos eleitores potiguares que nos liberte das antigas estruturas que perduram na história do Rio Grande do Norte. As pessoas precisam incorporar a indignação daquele homem coberto pela bandeira e usarem sua maior arma para provocar a mudança necessária e criar um tempo novo, no qual os desmandos, a inércia, a corrupção, o nepotismo sejam substituídos por um processo político verdadeiramente democrático.
O voto tomou o lugar da espada e da baioneta, e precisamos pensar nele enquanto uma conquista muito cara e importante para a verdadeira independência do povo brasileiro, que aos meus olhos, ainda não se realizou, mas que tem uma data marcada para começar: a próxima eleição.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

"Dei minha palavra por meio saco de cimento"

Era mais um dia de pegar transporte público para chegar ao trabalho. Enquanto eu ficava imaginando minhas justificativas para utilizar aquele sistema coletivo comecei a ouvir vozes bastante exaltadas nos bancos de trás do ônibus. E como boa antropóloga, aprendi a lição, "olhar, ouvir e escrever", assim, apurei o ouvido para acompanhar aquele diálogo. A conversa daqueles passageiros era sobre a eleição de 2010 e um deles estava muito empenhado em difamar os políticos das gestões atuais. Ele os chamava de falsos, enganadores e de corruptos. Por alguns segundos comecei a sentir simpatia por aquele homem e quando estava prestes a girar meu corpo no assento para lançar aquele olhar de cumplicidade que só nós eleitores tantas vezes enganados sabemos a hora correta de utilizar, aquele homem mudou o seu discurso.
Retomou sua fala dizendo que era natural do município de Parelhas, no interior do RN. E que um candidato local havia prometido ajudá-lo na reforma do seu banheiro. Segundo o homem, o cabo eleitoral passou na sua casa às vésperas da eleição e coletou o número do seu título de eleitor. Ficou a promessa que retornaria no dia da eleição com a ajuda para a tão necessitada reforma, e qual foi a surpresa daquele homem, quando o cabo eleitoral retornou com apenas meio saco de cimento. Como promessa é promessa, nada pode ser de fato cobrado, mas para aquele homem de Parelhas, seu voto valia a metade de um saco de cimento. Ele terminou sua fala dizendo "dei minha palavra por meio saco de cimento". E o silêncio voltou ao banco de trás do ônibus.
Fiquei imaginando o quanto um pouco de educação e informação podem fazer a diferença dentro de qualquer pleito eleitoral. Desde o século XVIII que os brasileiros lutam por participação política. Imagino os envolvidos na maior rebelião política brasileira, a Conjuração Baiana. Cipriano Barata e seus seguidores lutaram pelo direito à participação nos processos de decisão. Penso também nas revoltas do século XIX, como a Revolução de 1817. Era uma outra luta por igualdade, mas também por liberdade de expressão e mais uma vez, participação política.
Caso me permitam um salto no tempo, posso agora recordar da opressão imposta pelo regime militar e o movimento criado para derrubá-lo, seja a luta das guerrilhas urbanas, seja a reorganização da oposição no que ficou conhecido como "Diretas Já".
Quase 3 séculos de lutas e conquistas, mas o principal terreno continua sendo ocupado pela ignorância permissiva e passiva: a consciência do brasileiro.
Posso até criar o perfil daquele homem de Parelhas no ônibus e dizer que o mesmo deu a sua palavra "por meio de saco de cimento" por ser um trabalhador do campo, sem instrução e que ainda guarda muito da ingenuidade de tempos atrás. Seria uma justificativa muito leviana da minha parte.
Mas o que dizer de outros homens e mulheres, com diferentes níveis de formação educacional e cultural e moradores de todas as cidades deste imenso país que ainda trocam o seu voto por qualquer tipo de favorecimento?
Quando fiz 19 anos tirei o meu título de eleitor. De imediato recebi duas visitas: a primeira de um candidato a vereador, ele prometeu um cargo político para mim caso desse o meu apoio para ele. Ri daquela proposta e lhe disse que ainda era estudante universitária e não tinha nenhum interesse por administração pública. Em seguida, um parente muito próximo pediu para eu transferir meu título para uma cidade do interior e assim ajudá-lo a ser eleito. Minha recusa foi acompanhada de um sorriso para dizer que tenho a obrigação de participar da vida política do meu domicílio eleitoral, logo, não poderia atender sua solicitação.
Todos podemos ser convidados a vender, trocar ou barganhar nosso direito de escolha, mas todos devemos ser responsáveis pelas más escolhas que fazemos, levando em conta apenas nossas necessidades individuais e esquecendo que quatro anos de desastrosas políticas públicas significam quatro anos de atraso em setores estratégicos e vitais, como educação, saúde, transporte e moradia.
Precisamos reformar o pensamento, como já dizia Edgar Morin, e aproveitar para reformar as nossas instituições. A política é delas uma das principais, deve ser modificada para que sobreviva e nos conceda uma melhor vida no futuro.
Nossa palavra deve ser dada como garantia de um futuro melhor, até porque um vaso sanitário é fácil de encontrar, mas um bom político, precisa ser escolhido a dedo.

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