sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Doutor é quem tem doutorado

"Doutor é quem tem doutorado". Faz algum tempo que me inscrevi nesta comunidade no orkut porque acredito que ser doutor exige uma jornada de bastante estudo, responsabilidade social e ética científica. Aliás, estes dois últimos aspectos são os grandes dilemas da pesquisa atual como bem indica Edgar Morin na obra Ciência com Consciência.
A minha paixão pela ciência é antiga, mas minha opção pelas ciências humanas remonta aos meus tempos de menor aprendiz do Banco do Brasil.
Para falar um pouco sobre esta opção lembro que quase quinze anos atrás tive uma conversa com um amigo e colega de trabalho no Cesec, o professor Potiguar. Naquela conversa informal eu lhe dizia que gostaria de ser antropóloga ou cientista social. Ele, muito pacientemente me ouviu e disse: Moura Mendes, faça primeiro História e vá ser professora bem cedo, depois dedique-se às Ciências Sociais. Sábio conselho aquele. Em 2003 entrei na especialização em Antropologia. No ano de 2005 entrei no mestrado em Antropologia Social e no dia 27 de novembro de 2009 fui aprovada no doutorado em Ciências Sociais.
Coincidentemente hoje o encontrei na rua, lembrei de lhe dizer isto, mas acabamos conversando sobre outras coisas e a lembrança, fugaz, fugiu na ocasião. Haverá oportunidades para agradecer pela palavra boa e inspiradora que ele me ofereceu.
A cultura popular nos ensina que um conselho só deve ser dado em duas ocasiões: quando solicitado ou quando pode salvar uma vida. Eu digo mais, conselho útil é todo aquele que pode ser posto em prática, não importando o tempo que leve, mas os efeitos que ainda pode revelar.
Assim, fecho o círculo que iniciei através um aconselhamento de um grande amigo e, desejo que eu possa, diante dos novos desafios sócio-antropológicos que a pesquisa pode trazer, enfrentar as incertezas com a única certeza de ter bem seguido o conselho.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Natal em Natal?

25 de novembro de 2009...contagem regressiva para os cristãos de todo o mundo celebrarem o nascimento de Jesus de Nazaré.
Falando enquanto historiadora, sabemos que as fontes que tratam do mais importante evento do ocidente são poucas e com muitas lacunas, mas em quase 2 mil anos, a tradição se renova e o evento é reencenado, seja nas mentes ou nos palcos da vida.
A cidade de Natal tem uma relação muito particular com a data oficial de celebração do nascimento de Jesus de Nazaré. A capital potiguar foi fundada em 25 de dezembro de 1599 por ordem do Rei Felipe II. A história local conta que primeiro foi erguida uma fortaleza de taipa para fazer frente aos corsários franceses e aos indígenas rebelados. Expulsos os primeiros, pacificados os segundos, Jerônimo de Albuquerque cumprindo ordens de Manuel Mascarenhas Homem, marcha até uma elevação diante do Rio Potengi e funda a Cidade do Natal, ou a Cidade dos Santos Reis, a Cidade de Santiago.
Em 2009, quando a cidade faz 410 anos não vemos motivos para celebrar o duplo nascimento. O Natal em Natal é um Natal sem luz e sem identidade. Referências múltiplas e confusas se misturam em nossas avenidas, e o que poderia compor um excelente presépio mas parece uma tentativa de apagar as lembranças feitas de outros Natais. Os antigos faraós no Egito buscavam apagar as marcas deixadas pelos regentes anteriores. Em Natal até os Reis Magos do Viaduto de Ponta Negra tombaram, de nada importa terem eles seguido a estrela que anunciava a boa nova.
Sendo natalense e historiadora faço muitas reflexões quando atravesso todos os dias metros e metros de papel prata dispostos como uma tenda sobre a BR 101. Uso os conhecimentos em antropologia para a defesa da diversidade cultural, mas nem mesmo os primeiros antropólogos saberiam explicar quais são os elementos culturais que predominam na cidade, caso tomassem como análise os símbolos que se encontram espalhados em canteiros, árvores e postes: duendes característicos das tradições celtas e germanas, anjos nanicos e infantilizados portando instrumentos musicais nordestinos, sol, signo da criação e renascimento em várias civilizações surge com chapéu natalino, serafins alongados tocam trombetas mudas. E aí vem minha pergunta: Natal em Natal? Talvez em outro Natal quando os Três Reis Magos se erguerem novamente para renovar a fé de todos em uma boa nova.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Para não perder as crianças de vista

Nos dez anos da implantação do Estatudo do Menor e do Adolescente, poucas mudanças podemos perceber em torno dos cuidados do Estado e da Sociedade Civil sobre as nossas crianças e jovens.
Num país de uma diversidade sócio-econômica tão grande, faltam políticas públicas e ações coordenadas que possam garantir os direitos da infância e juventude.
Os direitos básicos ao lazer, educação e saúde são negligenciados.
Vemos nossas crianças e jovens sem áreas para a prática de esportes em suas comunidades e bairros, como também não existem muitos projetos de incentivo à cultura nas periferias de nosso país. O lazer enquanto direito social é esquecido e a sua ausência empurra nossos jovens para a marginalização ou os transforma em reféns da programação televisiva.
O direito à educação é um direito fundamental e hoje representa a maior lacuna no processo de formação de nossa juventude. Faz parte da realidade da escola pública brasileira, estabelecimentos sucateados, profissionais pouco valorizados e mau pagos, professores desmotivados e acuados diante da violência escolar. Será que perdemos as nossas crianças de vista?
E sobre a saúde do jovem brasileiro? Os dados apontam para o crescimento do consumo de drogas, como também para o aparecimento de novos problemas, como as depressões, suicídio,bulimia e anorexia. Onde está a raiz de todo este problema?
Há mais de um século o conceito de infância não tinha sido desenvolvido, como o conhecemos hoje, mas o sociólogo francês Émile Durkheim já havia apontado em 1895, a sociedade como fonte dos problemas do individuo.
Falta muito para a sociedade brasileira e o Estado entenderem que as crianças devem ser prioridade, não apenas os jovens que temos em nossas casas, mas o olhar deve ser para cada menino e menina com quem nos deparamos, um olhar de doçura, compreensão e acolhimento.
Acredito muito na canção abaixo e hoje, Dia das Crianças, quero dedicá-la à esperança de que um dia não mais perderemos nossas crianças de vista.
Não Perca As Crianças De Vista
O RAPPA
Pra enxergar o infinito
Debaixo dos meus pés
Não basta olhar de cima
E buscar no escuro, no obscuro
A sombra que me segue todo dia
Deixo quietoe seguro as páginas dos sonhos que não li
E outra vez não me impeço de dormir
Os jornais não informam mais
E as imagens nunca são tão claras
Como a vidaVou aliviar a dor e não perder
As crianças de vista
Família, um sonho ter uma família
Família, um sonho de todo dia
Família é quem você escolhe pra viver
Família é quem você escolhe pra você
Não precisa ter conta sanguínea
É preciso ter sempre um pouco mais de sintonia

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

TV DIGITAL: um espanto?

O ano era 1982 quando vi pela primeira vez aquela caixa brilhante no meio da sala. Confesso que aos cinco anos de idade não sabia exatamente do que tratava, mas percebia que era diferente do aparelho de rádio Canário, que minha avó materna guardava em seu quarto.
Enquanto do rádio ouvia apenas as vozes das pessoas, agora tínhamos uma caixa mágica com vozes e imagens; na minha percepção infantil, pensava que dentro dela moravam pequenas pessoas, que apareciam na tela quando girava o botão.
No ano de 1983 ganhamos nossa primeira tv preto e branco e fiz questão de passar horas escondida atrás da parede da cozinha, vigiando aquelas pessoas que eu sabia, chegavam de algum lugar, entravam pelos espaços da caixa e se apresentavam para todos nós.
Mas em pouco tempo já estava mais familiarizada e aprendi que o sinal de cada programa chegava até nossa televisão graças à antena que estava sobre a casa. Descobri também que aquelas pessoas, atores, atrizes, cantores, cantoras, apresentadores e apresentadoras, enquanto profissionais, gravavam programas que eram transmitidos pelas emissoras de televisão.
Bastaram dois ou três anos em contato com aquela nova mídia para perceber o seu funcionamento e entender a sua importância em nossas vidas, já que o tempo de nossa família era regulado pelos horários dos programas da tv.
Uma geração se passou e outras mídias surgiram ao longo dos últimos 25 anos, mas a nova tecnologia que atualmente me espanta chama-se tv digital.
O meu espanto reside nos discursos construídos sobre as possibilidades desta nova caixa mágica, desde ser utilizada enquanto ferramenta para o governo eletrônico e desenvolvimento da cidadania, como instrumento principal para o processo de inclusão digital e social, por último como um campo para a construção e socialização de saberes e de novos conhecimentos.
São muitas as expectativas elaboradas sobre esta nova tecnologia, mas poucas reflexões foram feitas sobre os outros usos possíveis da tv digital.
Além de servir aos interesses comerciais e financeiros, acredito que a tv digital pode transformar-se também num espaço para a comercialização de bens simbólicos, o que criará novos problemas para serem pensados pelos cientistas sociais e jornalistas.
Por enquanto, é só um susto de quem aos poucos descobre o que pode ser a tv digital. Vamos torcer para que ela não se torne um Leviatã.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Menor-Aprendiz

Em 13 de março de 1992, uma sexta-feira, comecei a minha primeira jornada no mundo do trabalho. Era de manhã bem cedo quando meu pai me deixou em frente à agência Centro do Banco do Brasil na Avenida Rio Branco. Respirei fundo e lembrei da antiga fórmula "dextro pede" para dar boa sorte.
Mas dentro da agência já estava uma adolescente que acabou ocupando a vaga que me estava destinada. Saí dali em direção à uma nova rua: General Glicério. O centro de processamento de dados do Banco do Brasil devia ter alguma função para eu ocupar. Nunca havia caminhado pela Ribeira, mas encontrei um carteiro no meio do caminho e ele me deixou em frente ao meu novo destino. Ainda hoje lembro dos tijolos amarelos que cobriam a fachada do prédio.
Todos nós adolescentes entre 14 e 15 anos entramos no Banco do Brasil como Menor-Aprendiz. Tínhamos carteira assinada, acesso ao serviço médico chamado Cassi e ainda direito na participação dos lucros do banco. Recebíamos um salário mínimo e o mesmo valor em vales, que eu entregava mensalmente para a minha mãe.
Eram apenas quatro horas de trabalho por dia, no desempenho de diferentes atividades dentro dos diversos setores do CESEC Natal, mas o clima de cordialidade e aprendizagens múltiplas era constante.
Foi no Banco do Brasil que tomei a decisão de ser antropóloga, aos 15 anos de idade, mas orientada pelo funcionário Antonio Potiguar, ainda hoje meu amigo, pensei em cursar história ou ciências sociais antes.
Entre os colegas de banco encontrei Licínio, que me emprestava livros fantásticos da Time Life, abertos e lidos por mim, muito antes dele ter folheado.
A Biblioteca do Banco do Brasil, com sede no Rio de Janeiro foi uma fonte de saberes e culturas. Li de tudo que me caía nas mãos e muitas daquelas leituras me formaram moralmente e psicologicamente.
Ser Menor-Aprendiz só tinha um inconveniente, usar aquela farda composta por uma calça Herbus e uma camisa pólo com o nome do banco gravado no bolso. Ainda está na minha memória o dia que o chefe do CESEC me chamou atenção por ter removido a etiqueta da calça.
Cada chefe me ensinava algo novo e útil, um deles de forma punitiva me educou na arte de fazer as coisas bem feitas. Certa vez, Marcos me chamou e disse para eu carimbar um relatório. Como faltavam minutos para a minha saída, eu carimbei em todos os ângulos e direções, como forma de protesto diante daquela solicitação tão na hora do fim do meu expediente. Resultado?
Marcos enfurecido me chamou no canto, me entregou um novo relatório RDB, e disse: "Comigo é assim, se varrer a casa mal varrida uma vez, irá varrer duas". Lição aprendida e preservada.
E o que motivou este post? Encontrei por acaso no orkut uma comunidade sobre Menor-Aprendiz.
Foi muito interessante ver tantos adultos gratos pelas experiências vividas nas diversas agências e Cesecs espalhados pelo Brasil e perceber que ainda existem muitos adolescentes cheios de sonhos e perspectivas em torno de uma instituição com 200 anos de idade. O Banco do Brasil foi minha primeira escola profissionalizante, e o curso que fiz lá me preparou para a vida.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Espaço criado para reflexões em torno da história, antropologia e comunicação social. Seja bem vindo e que a Musa Clio nos inspire.
Abraço:
Andreia Regina

A mulher do Judas

"A mulher do Judas", foi assim que o folclorista e estudioso da cultura popular Deífilo Gurgel me chamou quando nos conhecemos no Congresso Nacional do Folclore. De fato, desde 2003 que a temática da Inquisição e perseguição aos cristãos-novos me acompanha como foco de minhas leituras e reflexões, mas Judas chegou um pouco depois, nos estudos para o mestrado, e continua até agora em parte de meus trabalhos e apresentações em congressos.
Na primeira semana de setembro, participei do XIV CISO, evento patrocinado pela UFRPE e pela Fundação Joaquim Nabuco, e mais uma vez o tema foi Judas. O trabalho foi um novo olhar sobre meu objeto de pesquisa: Uma festa para o Judas.
Este post terá algumas postagens que fiz num primeiro blog chamado Malhação do Judas.
Post 1-
O valor que o Judas tem
A recente divulgação do Evangelho de Judas está abalando o mundo acadêmico. O documento de 1,7 mil anos apresenta uma nova versão do apóstolo acusado de trair Jesus de Nazaré e, ao mesmo tempo re­vela outras possibilidades de leitura sobre as vertentes místicas do cristianismo.Os pergaminhos foram encontrados no Egito e apontam para a ne­cessidade de um revisionismo da história do cristianismo e da sua fi­gura mais odiada: Judas Iscariotes.Judas nos aparece como uma personagem construída pelo imaginá­rio popular tendo sua verdadeira origem sido apagada pelas mãos dos cristãos mais ortodoxos Hoje ele é visto não apenas como aquele que vendeu o seu próprio mestre por 30 talentos, mas também como exemplo de alguém traidor, ganancioso e que comete outro crime ao final da vida, o suicídio em função do remorso sentido.O filme Paixão de Cristo, dirigido por Mel Gibson explora esta visão do apóstolo e insufla os sentimentos anti-semitas, que tantos conflitos já alimentaram.Numa análise dos contextos locais percebemos que a nossa cultura precisa da figura do Judas, não a recém divulgada pela descoberta do evangelho apócrifo, mas daquela criada ao longo da história cristã. O palco para esta análise foi o bairro das Rocas, zona leste de Natal.Na época da Semana Santa nos deslocamos pelas ruas da comunida­de para realizar uma observação do ritual da malhação do Judas. Conversando com os moradores locais coletamos diversos depoi­mentos nos quais, o boneco enforcado no poste e pronto para ser ma­lhado não correspondia à figura presente nos textos bíblicos.O boneco do Judas assume as mais diversas representações e quase sempre estas revelam um tom de crítica social e, alguns sinais de cli­vagem e de disputa dentro do próprio bairro. -Os mais antigos afirmam que a confecção do Judas era uma espécie de punição pela traição do discípulo e que a sua imolação no romper do sábado de aleluia significava a vitória do Cristo sobre a morte e sobre todo o mal.Entretanto, atualmente apenas os mais velhos possuem esta visão em torno da malhação do Judas. Para os jovens do bairro das Rocas, o que prevalece é a brincadeira violenta e muitas vezes as disputas pêlos bonecos das ruas vizinhas, logo, de outros grupos de convívio, refor­çando o caráter de rivalidade existente na comunidade.A malhação do Judas envolve todas as idades e ao mesmo tempo . provoca sentimentos diferentes nas pessoas que interagem.com o rito. Entretanto, o que todos esperam é que o boneco seja malhado numa espécie de catarse coletiva.Voltando ao achado histórico, o Evangelho de Judas reabilita o dis­cípulo como o único que entendeu a mensagem de Jesus e o libertou da prisão da carne, contribuindo desta forma para que Cristo cumpris­se com seu papel.Porém, mesmo que ocorra esta assimilação por parte do credo cris­tão, a cultura popular vai continuar confeccionando os seus bonecos de Judas, pelo fato dos mesmos terem um significado além daquele pregado nos evangelhos bíblicos.O valor que o Judas tem na comunidade das Rocas pode jamais ser alterado pela história e, o seu sentido deve permanecer ligado às ne­cessidades de expressão e de escape de uma realidade social construí­da e ao mesmo tempo renovada, como o próprio rito da malhação, como a própria figura do apóstolo Judas Iscariotes.
Artigo publicado no Jornal de Hoje em: 30 de junho de 2006.
Post 2-
A identidade do Judas na Semana Santa
Da mesma forma que persiste uma lacuna na produção historiográfica sobre o personagem histórico Judas Iscariotes, a antropologia social carece de estudos significativos sobre o rito da malhação do Judas. Assim, a dificuldade em coletar material historiográfico é também relativa aos registros etnográficos sobre a ‘queimação’, ‘malhação’ ou ‘brincadeira’ do ‘Judas’.Estas limitações impedem de realizar um estudo comparativo sobre a evolução do rito e das motivações que conduziram os participantes da malhação ao longo dos mais de três séculos da presença desta ‘brincadeira’ em terras brasileiras.Para nossos fins, as únicas referências sobre o rito da malhação-do-Judas foram elaboradas pelos folcloristas e pesquisadores da cultura popular. No Rio Grande do Norte, coube a Luís da Câmara Cascudo examinar as representações construídas em torno da figura do judeu (2001: 102) e sobre a queimação-do-Judas (1979: 417-419).Sobre os motivos que conduzem as pessoas a queimar ou malhar o boneco do ‘Judas’, Cascudo buscou explicações nos estudos produzidos pelos antropólogos evolucionistas, como Sir James Frazer. Segundo o folclorista, o ‘Judas’ seria a personificação do mal e a existência deste rito teria suas origens no paganismo[1], com a introdução dos cultos agrários e as festas da colheita, ocasiões nas quais era queimado um boneco representando uma divindade da vegetação. Assim, através do fogo, haveria uma renovação da vida espiritual e a garantia de boas colheitas.O folclorista Ernesto Veiga de Oliveira tratou do rito da malhação-do-Judas em Portugal (1974), também é chamado de ‘queima-do-Judas’. O rito acontece na noite ou madrugada do Sábado de Aleluia, quando os bonecos, sempre caracterizados com traços grosseiros e caricaturais, são amarrados em postes de cinco a seis metros de altura, aguardando a hora para serem queimados. O pesquisador aponta a presença de um testamento indicativo da animosidade vingativa do povo. Na sua análise, o rito faz parte dos festejos populares e os caracteriza apenas como mero divertimento. Para ele, as origens, razões e elementos constitutivos atuais diferem bastante da forma como foi concebido o rito. O ‘Judas’ pendurado no poste e depois queimado não representaria o apóstolo Iscariotes, fato que pode ser atestado pelas diferentes denominações que o boneco recebe em outros países europeus.Para Veiga de Oliveira, a personagem queimada tem sua origem em cultos proto-históricos assimilados pelo cristianismo, que aponta na perspectiva anteriormente citada por Câmara Cascudo, indicação de que a personagem e a sua queima são originárias da celebração de outro fato. Veiga de Oliveira indica ainda a possibilidade de interpretar a queima-do-Judas como uma espécie de imolação simbólica, derivada dos antigos sacrifícios humanos. Uma morte ritual[2] que espera a personagem para que a mesma possa, com o seu sacrifício, renovar as forças da natureza.Outro folclorista brasileiro, Ático Vilas-Boas da Mota dedicou-se à análise da queimação-do-Judas (1987). O seu método de coleta de informações para o trabalho consistiu no envio de questionários para diversas entidades, com o objetivo de esclarecer algumas questões em torno da malhação-do-Judas na região Nordeste. Segundo os dados levantados, a queimação-do-Judas ocorre no sábado da semana de Páscoa, o Sábado de Aleluia, e também pode ser chamada de ‘enforcamento’ ou ‘malhação’, dependendo do Estado nordestino.Quanto às origens do ritual, informa que o rito tem raízes históricas, defendendo a tese de que a malhação-do-Judas se caracterizava quanto ‘resíduo folclórico’, nesse caso, uma sobrevivência dos autos de fé da Inquisição portuguesa. Ele defende ainda que a malhação do boneco fosse um vestígio da prática inquisitorial de queimar a representação de um condenado que tenha morrido antes da aplicação da pena. Esta punição era conhecida por ‘queimação em efígie’.Segundo Mota, os bonecos são representações de personalidades públicas, moradores locais e políticos, ou seja, todo aquele que possa ser identificado como alguém mal-visto ou pouco quisto na comunidade. A elaboração e leitura de um testamento do ‘Judas’ antecedem a malhação do boneco, assinalando a função catártica para o grupo que o redige.No campo das manifestações da cultura popular, o Rio Grande do Norte possui um grupo folclórico denominado Malhadores do Judas. Este grupo é originário do município de Major Sales (oeste do Estado), e desenvolve uma dança na qual o boneco do ‘Judas’ é figura central. Os homens dançam e cantam entoadas, ocultando os rostos com máscaras de tecido e trajando roupas semelhantes às encontradas pelos grupos de malhadores de ‘Judas’ do município de Venha Ver.A análise dos dados permite concluir que a origem do rito aproxima-se mais da perspectiva apontada por Ático Vilas-Boas Mota. Na observação realizada no bairro das Rocas percebemos que os bonecos assumem diferentes personalidades, inclusive a do próprio apóstolo Judas Iscariotes.
[1] Christopher Crowley. Spirit of earth. Ancient belief systems in the modern world. London: Carlton books, 2000.
[2] René Girard. A violência e o sagrado. Rio de Janeiro: Paz e terra, 1998. Cap. 1, 10.Comunicação apresentada no XII Congresso brasileiro de Folclore em: 30 de agosto de 2006.
Post 3-
O Judas nosso de cada dia
No plano do imaginário cristão, ninguém representa melhor o estereótipo do traidor do que a figura de Judas Iscariotes. Segundo os textos dos evangelhos canônicos, Judas Iscariotes foi o discípulo responsável pela denúncia, prisão e consequentemente execução pública de Jesus de Nazaré. O apóstolo teria traído o seu mestre, recebendo por sua delação a quantia referente a trinta siclos, valor equivalente ao preço de um escravo. Com a prisão do nazareno, Judas teria dado provas de seu arrependimento e devolvido o dinheiro recebido das mãos dos sacerdotes judeus, cometendo suicídio, logo em seguida.Após quase dois mil anos, a memória deste fato permanece viva na cultura popular, sendo a representação do apóstolo trazida para os festejos católicos da Semana Santa. Personagem marginalizada e banida da história cristã, anualmente tem o seu drama encenado durante a véspera da Páscoa, no rito conhecido por “Malhação do Judas” ou “Queimação do Judas”, dependendo da região na qual é realizado.O ritual da Malhação do Judas tem origens em nosso país ainda no período colonial de nossa história, como atestaram os pesquisadores da cultura popular Luis da Câmara Cascudo e Ático Vilas-Boas Mota. Entretanto, o que nos chama atenção é que após quase cinco séculos a malhação permanece como um evento capaz de congregar crianças, jovens e adultos, principalmente do sexo masculino, para a reunião de materiais, confecção de um boneco representando o Judas e finalizando o rito com a aplicação da punição ao apóstolo traidor.Ainda no âmbito da cultura popular, o estado do Rio Grande do Norte possui mais uma expressão artística que tem Judas como figura central de suas apresentações, o grupo Caboclos Malhação de Judas do município de Major Sales, oeste do estado. A brincadeira, assim chamada pelos seus participantes, acontece durante os festejos da Semana Santa e segue a estrutura comum do rito: confecção do boneco, punição e dilaceração ou queimação do Judas. O grupo tem uma formação com doze ou dezesseis dançarinos que encenam seus passos a partir da batida da zabumba, do toque do pandeiro e da sanfona e triângulo. Enquanto dançam, o boneco de Judas, feito geralmente de palha de bananeira e panos, é pisoteado, recebendo golpes com os bastões que os brincantes carregam consigo. Um aspecto bastante interessante destes grupos é o uso da máscara de pano pelos dançarinos e as roupas feitas a partir de trapos de pano e a presença do bastão, confeccionado a partir da madeira da gameleira. Esta informação foi inserida neste artigo para enfatizar o caráter de permanência do rito em terras potiguares.Neste artigo, pretendemos discutir a presença do ritual da malhação do Judas em espaços sociais diferenciados: o campo e a cidade; como também apresentar as diferentes leituras que são feitas da personagem que é imolada durante o ritual.A Malhação do Judas foi objeto de nossa observação em duas áreas bem distintas: Município de Venha Ver (oeste do RN) e o Bairro das Rocas (zona leste da cidade de Natal). No ano de 2005 pudemos acompanhar os festejos da Semana Santa na cidade de Venha Ver e observamos dois grupos de malhadores de Judas: um grupo no centro da cidade e outro numa área mais afastada.Na manhã do Sábado de Aleluia, nos deparamos com o primeiro cortejo de malhadores de Judas. Este primeiro grupo era composto por adolescentes do sexo masculino com idades entre 08 aos 14 anos. Traziam uma figura confeccionada a partir da cabeça de uma boneca sobre um corpo cosido em uma manta velha. O boneco encontrava-se instalado sobre um jumento. Dois aspectos nos chamaram atenção. Primeiro, a representação do Judas havia sido composta como uma personagem feminina; segundo, todos os membros deste grupo de malhadores portavam máscaras de papel, ou tecidos sobre o rosto, usavam roupas femininas e disfarçavam a voz evitando qualquer reconhecimento.O grupo seguinte portava um boneco com a cabeça feita a partir de uma lata cilíndrica de óleo de cozinha, utilizando um boné e óculos escuros. O Judas (com vestimentas masculinas) encontrava-se assentado sobre um jumento e seu corpo havia sido preenchido com folhas secas. Ambos os grupos de malhadores pediram ‘esmolinha’ para malhar o Judas e por essa razão, traziam uma lata ou cabaça para coletar o dinheiro que seria utilizado na malhação. A hora anunciada para malhar o Judas foi a meia-noite do Sábado de Aleluia, entretanto, os lugares não nos foram revelados.Enquanto a malhação do Judas caracterizava-se como um momento lúdico para as crianças e adolescentes em Venha Ver, a passagem do boneco também motivava sentimentos piedosos nos mais velhos. Como exemplo, observamos a pressa de uma senhora (com aproximadamente 65 anos de idade), em cobrir com panos os ícones religiosos que tinha em sua casa. Quando perguntada sobre o seu gesto, a mesma nos informou que precisava proteger o “Senhor Jesus Cristo” da visão de seu traidor: o apóstolo Judas Iscariotes.Numa análise antropológica do ritual, podemos definir a malhação do Judas quanto um rito liminar e de caráter punitivo. O grupo social assume a tarefa de castigar o boneco do Judas utilizando-se de várias interpretações para justificar esta ação. Segundo Arnold Van Gennep: “As crenças religiosas expressam a consciência que a sociedade tem de si mesma, a estrutura social é creditada com poderes punitivos que a mantém existente”.No ano de 2006 deslocamos nossa observação do rito da Malhação do Judas para um novo campo: O Bairro das Rocas. Este bairro partilha de uma identidade festiva muito conhecida, sendo o lócus de agremiações de carnaval, arraiais de quadrilhas juninas e de uma sociedade para danças folclóricas desaparecidas e semi-desaparecidas.O ritual da Malhação do Judas, ainda mais forte nas cidades do interior, perdeu força na capital do Estado, o que Luis da Câmara Cascudo já havia apontado no ano de 1979. Entretanto, o Bairro das Rocas continua a produzir os seus bonecos para as celebrações da Semana Santa. O dia para a confecção do Judas é a Sexta-feira da Paixão. Após a hora do almoço, podemos acompanhar a movimentação de homens, mulheres e adolescentes no transporte e elaboração de seus bonecos.Dos muitos “Judas” espalhados pelo Bairro, acompanhamos a confecção de um boneco feito pela dirigente de uma das agremiações carnavalescas das Rocas. Este Judas foi construído a partir de sobras de alegorias do último carnaval e sua roupa foi elaborada de uma fantasia utilizada por um componente da escola de samba. Enquanto era preparado pela senhora e por seu filho adulto, o boneco era espancado e alvo de muitas brincadeiras, piadas e risos.A confecção do Judas deu-se no barracão da escola de samba, sobre uma mesa, entre troféus e lembranças de outros carnavais. A senhora responsável pela confecção do Judas nos relatou como faz o boneco: falou que o boneco de Judas é costumeiramente feio, pois sendo Iscariotes o traidor de Jesus Cristo, o mesmo não pode ser representado com beleza. Na elaboração do boneco, ela utilizou: sapatos velhos, cinto, calça, camisa, algumas vezes, macacão. A cabeça do boneco é confeccionada com a manga de uma camisa. O rosto é pintado no tecido utilizando lápis piloto.O boneco da Semana Santa de 2006 foi feito da seguinte forma:1º Costurou a camisa na calça;2º Encheu a roupa com espuma que sobrou das alegorias do último desfile do carnaval da cidade do Natal;3º Costurou a cabeça na camisa e apoiou a mesma utilizando uma vara de madeira. O tecido para a cabeça foi escolhido numa cor próximo ao tom de pele;4º Pintou a boca e o nariz, fez os olhos com pedaços de emborrachado e assim desenhou a face de Judas. O boneco estava pronto.Finalizado, foi abraçado pelos seus criadores e em seguida, sentado numa cadeira dentro do muro de casa, aguardando a hora para a sua malhação. Um aspecto que deve ser acentuado sobre este boneco de Judas é a preocupação de seus criadores em montar um Judas bem vestido e ricamente adornado, sendo por eles considerado, o boneco mais “posudo” de todo o bairro e, por isso o último que deveria ser malhado.Quando perguntamos sobre os motivos que conduziram àquela senhora e seu filho a fabricação do boneco os mesmos nos responderam que era uma “brincadeira” para divertir os meninos e jovens da rua, mas só após a malhação de todos os outros Judas das Rocas.Em seguida, verificamos a presença de outro Judas na mesma rua. Havia sido confeccionado por uma antiga moradora do bairro O boneco feito por ela, reunia peças velhas de roupas, a cabeça de uma boneca e sapatos infantis. O mesmo já apresentava a cabeça solta, minutos após ter sido colocado sobre o capô de um fusca. O que indica que a malhação do Judas não é um rito com horário estabelecido e respeitado, na verdade, a partir do momento que se posiciona o Judas num poste ou árvore, os malhadores já causam os primeiros danos ao boneco, finalizando a dilaceração com a chegada da meia-noite.Quando indagada sobre os motivos que a conduziram para elaborar um boneco de Judas, esta senhora nos afirmou que o faz há muito tempo e que é a forma que encontrou para representar Judas, o traidor de Jesus. Para ela, a malhação seria uma punição ao apóstolo pelo mesmo ter entregue o nazareno aos romanos.O boneco do Judas representa simbolicamente todo indivíduo ou coisa pela qual a comunidade nutre desavenças, guarda rancores ou rivalidades. É comum em outros estados do Brasil, durante a Semana Santa, os bonecos assumirem feições de personalidades públicas e locais, sendo posteriormente rasgados e queimadosNa análise do ritual da malhação do Judas apontamos uma dicotomia entre as interpretações dadas para o sagrado e o profano. Enquanto grupos de malhadores do boneco nas Rocas explicitam a necessidade de liberar suas tensões e sinalizar seus desafetos tanto nos planos individual e coletivo, outros malhadores fazem o boneco e ritualizam sua imolação para aliviar suas angústias espirituais aplicando castigos ao boneco representando a figura do apóstolo traidor.Os conflitos dentro da comunidade são nivelados dentro do rito, e esta é a função principal. A figura elaborada, surrada e queimada ao final da malhação tanto pode ser um sujeito ou uma coisa para a qual é transferida a aplicação das penas e castigos, imputando ao objeto estranho ao grupo a violência que pelo contrário voltaria para a comunidade.Concluindo, o ritual é bom pra resolver os conflitos seja nas Rocas ou em Venha Ver e, ao mesmo tempo, importante para transmitir os valores sociais presentes no grupo.

Dia de Reis e os sentidos desse evento para nossa história

 Dia de Reis Magos e os sentidos desse evento para nossa história Está escrito no Evangelho de Mateus, 2:1, (...) eis que magos vieram do Or...