segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Escolha a Catástrofe




Na década de 90 conheci a obra de Isaac Asimov. Como toda iniciante, li primeiro I robot e fui aos poucos me familiarizando com o gênero ficcional e científico de sua escrita. Um dos maiores méritos de Isaac Asimov foi transformar a ciência em algo compreensível para mim a partir da literatura. Por quase dez anos me dediquei aos seus livros e escritos, mas um deles me chamou atenção de forma especial: Escolha a catástrofe.

Nesta obra, o autor nos apresenta quais os cataclismas que ocorrerão sobre nossa espécie, nosso planeta, nosso sistema solar e o próprio universo. Em graus diferentes, Asimov demonstra como a própria natureza pode sofrer alterações, tanto geofísicas quanto antropogênicas que podem, pôr fim desde à vida na terra até a desorganização do cosmos num processo parecido com a evasão-entropia que deu origem ao Big Bang.

Na época de minha leitura, fiquei muito mais preocupada com o fim dos recursos naturais, como a água e o petróleo, mas hoje sentimos que o mundo mudou e a natureza responde de forma mais agressiva às alterações climáticas.

Nesta semana, a Cúpula de Copenhague continua gerando discussões e debates. A Conferência Mundial sobre o clima, na Dinamarca, discute os rumos da nossa relação com o planeta para os próximos 10 anos, com a proposta inicial de redução das emissões de CO2 pelos países ricos e em desenvolvimento, com exceção dos Estados Unidos, pois sabemos que os mesmos não participam do Protocolo de Kyoto. Entretanto, estas medidas devem ser implementadas imediatamente antes que sejam desnecessárias, em 2012, por exemplo.

Pensando na relação entre as catástrofes anunciadas por Asimov e as mudanças climáticas, resolvi assistir o "fim do mundo". O filme 2012 é uma proposta muito mais alarmante do que os piores prognósticos sobre as mudanças climáticas para os próximos 24 meses. Nem o próprio Asimov teria elaborado um apocalipse naquelas dimensões.
Muitas culturas possuem suas escatologias, e o tema do fim da humanidade e um novo recomeço é recorrente na Mesopotâmia com o mito de Gilgamesh, e no Antigo Testamento com Noé e a tripulação de uma arca que ancoraram no Monte Ararat e recomeçaram a repovoar a terra após a grande inundação. Mas na América, as culturas nativas também elaboraram suas escatologias. Os povos mesoamericanos forneceram elementos riquíssimos para a construção de uma profecia que prevê o retorno do deus Quetzalcoatl, a serpente emplumada.Segundo o Dicionário de Religiões, esta divindade representa o vento e é uma figura divina do bem, simbolizando harmonia, equilíbrio e fecundidade. Já a obra, Os símbolos místicos, apresenta esta divindade como de natureza protetora-destrutiva, mas capaz de fazer a ordem superar o caos. Recentemente tenho visto bastante exploração da mídia sobre este tema, o que é um tanto compreensível pelas catástofes naturais que atingem o planeta nos últimos anos.
Entretanto é importante racionalizar e perguntar: o que podemos aprender com uma profecia? Uma outra questão: o que podemos pensar de toda e qualquer história mitológica?
Dentro do mito existe verdade ou a necessidade de elaborar uma verdade que seja aceita pelo grupo. É importante não concentrar-se somente no que os maias ou astecas previram, mas principalmente nos contextos culturais de elaboração destas crenças.
Os problemas climáticos que vivenciamos hoje são reais e tem origens históricas nas mudanças geradas pelo industrialismo colocado em funcionamento a partir do século XIX. Algo que jamais poderia ter sido previsto pelas culturas mesoamericanas. Nos últimos 200 anos, a humanidade desenvolveu uma forma de exploração dos recursos naturais que não deixa outra alternativa ao planeta senão expulsar os agressores. De acordo com a teoria Gaia, é isto que ocorre neste exato momento. Entretanto, físicos apontam que o nosso sol apresenta alterações em sua crosta, que podem ser determinantes para uma série de mudanças sobre todo o sistema solar.
E agora chegamos ao ponto central: 2012 será o fim? 2012 será o novo começo? Escolha a sua catástrofe, eu já selecionei qual é a minha.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Doutor é quem tem doutorado

"Doutor é quem tem doutorado". Faz algum tempo que me inscrevi nesta comunidade no orkut porque acredito que ser doutor exige uma jornada de bastante estudo, responsabilidade social e ética científica. Aliás, estes dois últimos aspectos são os grandes dilemas da pesquisa atual como bem indica Edgar Morin na obra Ciência com Consciência.
A minha paixão pela ciência é antiga, mas minha opção pelas ciências humanas remonta aos meus tempos de menor aprendiz do Banco do Brasil.
Para falar um pouco sobre esta opção lembro que quase quinze anos atrás tive uma conversa com um amigo e colega de trabalho no Cesec, o professor Potiguar. Naquela conversa informal eu lhe dizia que gostaria de ser antropóloga ou cientista social. Ele, muito pacientemente me ouviu e disse: Moura Mendes, faça primeiro História e vá ser professora bem cedo, depois dedique-se às Ciências Sociais. Sábio conselho aquele. Em 2003 entrei na especialização em Antropologia. No ano de 2005 entrei no mestrado em Antropologia Social e no dia 27 de novembro de 2009 fui aprovada no doutorado em Ciências Sociais.
Coincidentemente hoje o encontrei na rua, lembrei de lhe dizer isto, mas acabamos conversando sobre outras coisas e a lembrança, fugaz, fugiu na ocasião. Haverá oportunidades para agradecer pela palavra boa e inspiradora que ele me ofereceu.
A cultura popular nos ensina que um conselho só deve ser dado em duas ocasiões: quando solicitado ou quando pode salvar uma vida. Eu digo mais, conselho útil é todo aquele que pode ser posto em prática, não importando o tempo que leve, mas os efeitos que ainda pode revelar.
Assim, fecho o círculo que iniciei através um aconselhamento de um grande amigo e, desejo que eu possa, diante dos novos desafios sócio-antropológicos que a pesquisa pode trazer, enfrentar as incertezas com a única certeza de ter bem seguido o conselho.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Natal em Natal?

25 de novembro de 2009...contagem regressiva para os cristãos de todo o mundo celebrarem o nascimento de Jesus de Nazaré.
Falando enquanto historiadora, sabemos que as fontes que tratam do mais importante evento do ocidente são poucas e com muitas lacunas, mas em quase 2 mil anos, a tradição se renova e o evento é reencenado, seja nas mentes ou nos palcos da vida.
A cidade de Natal tem uma relação muito particular com a data oficial de celebração do nascimento de Jesus de Nazaré. A capital potiguar foi fundada em 25 de dezembro de 1599 por ordem do Rei Felipe II. A história local conta que primeiro foi erguida uma fortaleza de taipa para fazer frente aos corsários franceses e aos indígenas rebelados. Expulsos os primeiros, pacificados os segundos, Jerônimo de Albuquerque cumprindo ordens de Manuel Mascarenhas Homem, marcha até uma elevação diante do Rio Potengi e funda a Cidade do Natal, ou a Cidade dos Santos Reis, a Cidade de Santiago.
Em 2009, quando a cidade faz 410 anos não vemos motivos para celebrar o duplo nascimento. O Natal em Natal é um Natal sem luz e sem identidade. Referências múltiplas e confusas se misturam em nossas avenidas, e o que poderia compor um excelente presépio mas parece uma tentativa de apagar as lembranças feitas de outros Natais. Os antigos faraós no Egito buscavam apagar as marcas deixadas pelos regentes anteriores. Em Natal até os Reis Magos do Viaduto de Ponta Negra tombaram, de nada importa terem eles seguido a estrela que anunciava a boa nova.
Sendo natalense e historiadora faço muitas reflexões quando atravesso todos os dias metros e metros de papel prata dispostos como uma tenda sobre a BR 101. Uso os conhecimentos em antropologia para a defesa da diversidade cultural, mas nem mesmo os primeiros antropólogos saberiam explicar quais são os elementos culturais que predominam na cidade, caso tomassem como análise os símbolos que se encontram espalhados em canteiros, árvores e postes: duendes característicos das tradições celtas e germanas, anjos nanicos e infantilizados portando instrumentos musicais nordestinos, sol, signo da criação e renascimento em várias civilizações surge com chapéu natalino, serafins alongados tocam trombetas mudas. E aí vem minha pergunta: Natal em Natal? Talvez em outro Natal quando os Três Reis Magos se erguerem novamente para renovar a fé de todos em uma boa nova.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Para não perder as crianças de vista

Nos dez anos da implantação do Estatudo do Menor e do Adolescente, poucas mudanças podemos perceber em torno dos cuidados do Estado e da Sociedade Civil sobre as nossas crianças e jovens.
Num país de uma diversidade sócio-econômica tão grande, faltam políticas públicas e ações coordenadas que possam garantir os direitos da infância e juventude.
Os direitos básicos ao lazer, educação e saúde são negligenciados.
Vemos nossas crianças e jovens sem áreas para a prática de esportes em suas comunidades e bairros, como também não existem muitos projetos de incentivo à cultura nas periferias de nosso país. O lazer enquanto direito social é esquecido e a sua ausência empurra nossos jovens para a marginalização ou os transforma em reféns da programação televisiva.
O direito à educação é um direito fundamental e hoje representa a maior lacuna no processo de formação de nossa juventude. Faz parte da realidade da escola pública brasileira, estabelecimentos sucateados, profissionais pouco valorizados e mau pagos, professores desmotivados e acuados diante da violência escolar. Será que perdemos as nossas crianças de vista?
E sobre a saúde do jovem brasileiro? Os dados apontam para o crescimento do consumo de drogas, como também para o aparecimento de novos problemas, como as depressões, suicídio,bulimia e anorexia. Onde está a raiz de todo este problema?
Há mais de um século o conceito de infância não tinha sido desenvolvido, como o conhecemos hoje, mas o sociólogo francês Émile Durkheim já havia apontado em 1895, a sociedade como fonte dos problemas do individuo.
Falta muito para a sociedade brasileira e o Estado entenderem que as crianças devem ser prioridade, não apenas os jovens que temos em nossas casas, mas o olhar deve ser para cada menino e menina com quem nos deparamos, um olhar de doçura, compreensão e acolhimento.
Acredito muito na canção abaixo e hoje, Dia das Crianças, quero dedicá-la à esperança de que um dia não mais perderemos nossas crianças de vista.
Não Perca As Crianças De Vista
O RAPPA
Pra enxergar o infinito
Debaixo dos meus pés
Não basta olhar de cima
E buscar no escuro, no obscuro
A sombra que me segue todo dia
Deixo quietoe seguro as páginas dos sonhos que não li
E outra vez não me impeço de dormir
Os jornais não informam mais
E as imagens nunca são tão claras
Como a vidaVou aliviar a dor e não perder
As crianças de vista
Família, um sonho ter uma família
Família, um sonho de todo dia
Família é quem você escolhe pra viver
Família é quem você escolhe pra você
Não precisa ter conta sanguínea
É preciso ter sempre um pouco mais de sintonia

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

TV DIGITAL: um espanto?

O ano era 1982 quando vi pela primeira vez aquela caixa brilhante no meio da sala. Confesso que aos cinco anos de idade não sabia exatamente do que tratava, mas percebia que era diferente do aparelho de rádio Canário, que minha avó materna guardava em seu quarto.
Enquanto do rádio ouvia apenas as vozes das pessoas, agora tínhamos uma caixa mágica com vozes e imagens; na minha percepção infantil, pensava que dentro dela moravam pequenas pessoas, que apareciam na tela quando girava o botão.
No ano de 1983 ganhamos nossa primeira tv preto e branco e fiz questão de passar horas escondida atrás da parede da cozinha, vigiando aquelas pessoas que eu sabia, chegavam de algum lugar, entravam pelos espaços da caixa e se apresentavam para todos nós.
Mas em pouco tempo já estava mais familiarizada e aprendi que o sinal de cada programa chegava até nossa televisão graças à antena que estava sobre a casa. Descobri também que aquelas pessoas, atores, atrizes, cantores, cantoras, apresentadores e apresentadoras, enquanto profissionais, gravavam programas que eram transmitidos pelas emissoras de televisão.
Bastaram dois ou três anos em contato com aquela nova mídia para perceber o seu funcionamento e entender a sua importância em nossas vidas, já que o tempo de nossa família era regulado pelos horários dos programas da tv.
Uma geração se passou e outras mídias surgiram ao longo dos últimos 25 anos, mas a nova tecnologia que atualmente me espanta chama-se tv digital.
O meu espanto reside nos discursos construídos sobre as possibilidades desta nova caixa mágica, desde ser utilizada enquanto ferramenta para o governo eletrônico e desenvolvimento da cidadania, como instrumento principal para o processo de inclusão digital e social, por último como um campo para a construção e socialização de saberes e de novos conhecimentos.
São muitas as expectativas elaboradas sobre esta nova tecnologia, mas poucas reflexões foram feitas sobre os outros usos possíveis da tv digital.
Além de servir aos interesses comerciais e financeiros, acredito que a tv digital pode transformar-se também num espaço para a comercialização de bens simbólicos, o que criará novos problemas para serem pensados pelos cientistas sociais e jornalistas.
Por enquanto, é só um susto de quem aos poucos descobre o que pode ser a tv digital. Vamos torcer para que ela não se torne um Leviatã.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Menor-Aprendiz

Em 13 de março de 1992, uma sexta-feira, comecei a minha primeira jornada no mundo do trabalho. Era de manhã bem cedo quando meu pai me deixou em frente à agência Centro do Banco do Brasil na Avenida Rio Branco. Respirei fundo e lembrei da antiga fórmula "dextro pede" para dar boa sorte.
Mas dentro da agência já estava uma adolescente que acabou ocupando a vaga que me estava destinada. Saí dali em direção à uma nova rua: General Glicério. O centro de processamento de dados do Banco do Brasil devia ter alguma função para eu ocupar. Nunca havia caminhado pela Ribeira, mas encontrei um carteiro no meio do caminho e ele me deixou em frente ao meu novo destino. Ainda hoje lembro dos tijolos amarelos que cobriam a fachada do prédio.
Todos nós adolescentes entre 14 e 15 anos entramos no Banco do Brasil como Menor-Aprendiz. Tínhamos carteira assinada, acesso ao serviço médico chamado Cassi e ainda direito na participação dos lucros do banco. Recebíamos um salário mínimo e o mesmo valor em vales, que eu entregava mensalmente para a minha mãe.
Eram apenas quatro horas de trabalho por dia, no desempenho de diferentes atividades dentro dos diversos setores do CESEC Natal, mas o clima de cordialidade e aprendizagens múltiplas era constante.
Foi no Banco do Brasil que tomei a decisão de ser antropóloga, aos 15 anos de idade, mas orientada pelo funcionário Antonio Potiguar, ainda hoje meu amigo, pensei em cursar história ou ciências sociais antes.
Entre os colegas de banco encontrei Licínio, que me emprestava livros fantásticos da Time Life, abertos e lidos por mim, muito antes dele ter folheado.
A Biblioteca do Banco do Brasil, com sede no Rio de Janeiro foi uma fonte de saberes e culturas. Li de tudo que me caía nas mãos e muitas daquelas leituras me formaram moralmente e psicologicamente.
Ser Menor-Aprendiz só tinha um inconveniente, usar aquela farda composta por uma calça Herbus e uma camisa pólo com o nome do banco gravado no bolso. Ainda está na minha memória o dia que o chefe do CESEC me chamou atenção por ter removido a etiqueta da calça.
Cada chefe me ensinava algo novo e útil, um deles de forma punitiva me educou na arte de fazer as coisas bem feitas. Certa vez, Marcos me chamou e disse para eu carimbar um relatório. Como faltavam minutos para a minha saída, eu carimbei em todos os ângulos e direções, como forma de protesto diante daquela solicitação tão na hora do fim do meu expediente. Resultado?
Marcos enfurecido me chamou no canto, me entregou um novo relatório RDB, e disse: "Comigo é assim, se varrer a casa mal varrida uma vez, irá varrer duas". Lição aprendida e preservada.
E o que motivou este post? Encontrei por acaso no orkut uma comunidade sobre Menor-Aprendiz.
Foi muito interessante ver tantos adultos gratos pelas experiências vividas nas diversas agências e Cesecs espalhados pelo Brasil e perceber que ainda existem muitos adolescentes cheios de sonhos e perspectivas em torno de uma instituição com 200 anos de idade. O Banco do Brasil foi minha primeira escola profissionalizante, e o curso que fiz lá me preparou para a vida.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Espaço criado para reflexões em torno da história, antropologia e comunicação social. Seja bem vindo e que a Musa Clio nos inspire.
Abraço:
Andreia Regina

Dia de Reis e os sentidos desse evento para nossa história

 Dia de Reis Magos e os sentidos desse evento para nossa história Está escrito no Evangelho de Mateus, 2:1, (...) eis que magos vieram do Or...